sábado, janeiro 05, 2013

O SUPERIOR HOMEM-ARANHA E A ETERNA INSATISFAÇÃO DOS LEITORES



Fã de quadrinhos é bicho engraçado: reclama quando o título está estagnado, com as mesmas histórias óbvias e sem criatividade de sempre, mas quando as mudanças surgem, reclamam dobrado. É o que está acontecendo agora, com as mudanças anunciadas no título do Homem-Aranha com o advento do Marvel Now!, com a maioria dos títulos da Casa das Ideias sofrendo reformulações de modo a competir com a Distinta Concorrência e seu Novos 52 (não que precise, mas...). Pelo que eu li em alguns sites, essa mudança está sendo planejada já há 100 edições, desde o #600 do título clássico do Spidey lá fora, Amazing Spider-Man, tendo seu ponto alto na edição #700, com uma bombástica revelação que "mudará para sempre a vida do Homem-Aranha" e o fim do título. Em seu ugar entra The Superior Spider-Man, com alguém por trás das máscaras que não é o Peter Parker. Em função disso, o Homem-Aranha terá uma personalidade mais sombria. Aparentemente, os planos da editora  envolvem um ano com o tal "Superior" fazendo parte do Universo Marvel como um todo, já que o Aranha também é um Vingador e um dos membros da Fundação Futuro (para quem não sabe, o status quo atual - ou não - do Quarteto Fantástico). É bom? É ruim? Só se saberá agora, com a publicação da edição # 1 lá fora. Mesmo sem ler, comunidade em geral chiou só com os anúncios. 

Como eu já disse antes em ocasiões parecidas, a maioria das pessoas que reclamam normalmente são fãs que nem mesmo lêem mais o título. O bloco dos descontentes com o roteirista Dan Slott até mesmo ameaçaram o autor e a sua família de morte, o que, a meu ver, é levar a coisa um pouco longe demais. Se o personagem casa, reclamam. Se morre, reclamam. Se ressuscita, reclamam. Se muda o uniforme, reclamam. Se volta o uniforme original, reclamam. Se matam a sua namoradinha, reclamam. Ou seja, nada de novo no front.  O que quem reclama esquece e que já deveria saber, nessa altura do campeonato, é que dificilmente essas mudanças, mesmo que positivas, permanecem. Uma hora, o Peter retorna da morte (uops!) e tudo volta ao normal. Mesmo que a equipe criativa, com seu plano de um ano, não mude essa situação, algum outro escritor vai. Então, de que adianta ficar reclamando? Eu, como fã do personagem e sabendo que nada é permanente, fiquei mais curioso com o que vão fazer do que revoltado. E mesmo que não ficasse, tenho mais o que fazer do que ficar espalhando ódio pelo Facebook e pelo Twitter. 


segunda-feira, dezembro 31, 2012

MELHORES HQS DE 2012

Eu sei, eu sei, eu li outras coisas além do que está nesta lista, mas estou tentando limitar para os títulos inéditos que foram lançados este ano. Algumas, claro, são títulos mensais cuja existência se prolonga por anos a fio, mas a maioria são séries, minis ou edições especiais lançadas em 2012. E aqui está:



Nacionais:

Pinóquio, de Winshluss (Editora Globo)

Habibi, de Craig Thompson (Quadrinhos na Cia./Cia. das Letras)

Astronauta: Magnetar, de Danilo Beyruth (Panini Comics)

Fracasso de Público - Adeus, de Alex Robinson (HQM Comics)

O Paraíso de Zahra, de Amir e Khalil (Leya/Barba Negra)

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès (Leya/Barba Negra)

O Inescrito, de Mike Carey e Peter Snejberg (Panini Comics)

Sweet Tooth - Depois do Apocalipse - Volume 1 - Saindo da Mata, de Jeff Ramire (Panini Comics)

Vertigo, Vários (Panini Comics)

Dark, Vários (Panini Comics)

A Liga Extraordinária - Século 2009, de Alan Moore e Kevin O'Neill (Devir Livraria)

Monster, de Naoki Urasawa (Panini Comics)

20th Century Boys, de Naoki Urasawa (Panini Comics)

Incal Integral, de Alexandro Jodorowsky e Moebius (Devir Livraria)

Hellboy: Caçada Selvagem, por Mike Mignola e Duncan Fegredo (Mythos Editora)

Surpreendentes X-Men - Volume 3 - Incontrolável, de Joss Whedon e John Cassaday (Panini Comics)

Vikings - A viúva do Inverno, por Brian Wood e Leandro Fernandez (Panini Comics)

Sandman Apresenta, Vários (Panini Comics)

Y - O Último Homem - Volume 8 - Dragões de Quimono, de Brian K. Vaughan  e Pia Guerra (Panini Comics)

Y - O Último Homem - Volume 9 - Pátria-Mãe, de Brian K. Vaughan  e Pia Guerra (Panini Comics)

Y - O último homem - Volume 10 - Não Há Causa sem Porquê, de Brian K. Vaughan  e Pia Guerra (Panini Comics)

Jonah Hex - Volume 6 - Balas não Mentem, de Jimmy Palmiotti, Justin Gray e vários (Panini Comics)

100 Balas - Volume 8 - Samurai, de Brian Azzarello e Eduardo Risso (Panini Comics)

100 Balas - Volume 10 - Vidas dizimadas, de Brian Azzarello e Eduardo Risso (Panini Comics)

100 Balas - Volume 11 - Decaído, de Brian Azzarello e Eduardo Risso (Panini Comics)

Ex Machina - Volume 8 - Truques sujos, de Brian K. Vaughan e Tony Harris (Panini Comics)

Ex Machina - Volume 9 - Os sinos da despedida, de Brian K. Vaughan e Tony Harris (Panini Comics)


"Importados":

Fables, de Bill Willingham, Mark Buckinham e vários (Vertigo)

Fairest, de Bill Willingham (Vertigo)

The Walking Dead, de Robert Kirkman  e Charlie Adlard (Image Comics)

Saga, de Brian K. Vaugham e Fiona Staples (Image Comics)

Hawkeye, de Matt Fraction e DAvid Aja (Marvel Comics)

Daredevil, de Mark Waid e vários (Marvel Comics)

All-Star Western, de Justin Gray e Jimmy Palmiotti (DC Entertainment)

Wonder Woman, de Brian Azzerello e Cliff Chiang (DC Entertainment)


Coisas que saíram esse ano e que eu não li ainda, mas estão na fila e parecem foda: 

X-Men vs. Avengers, Vários (Marvel Comics)

Winter Soldier, de Ed Brubaker, Butch Guice, Michael Lark e Bettie Breitweiser (Marvel Comics)

America’s Got Powers, de Jonathan Ross e Bryan Hitch (Image Comics)

Conan the Barbarian, de Brian Wood e Becky Cloonan (Dark Horse Comics)

The Punisher, de Greg Rucka, Michael Lark, Stefano Gaudino, Marco Checchetto e Mirko Colak
(Marvel Entertainment)

Dancer, de Nathan Edmondson e Nic Klein (Image Comics)

Fantastic Four, de Jonathan Hickman e vários (Marvel Entertainment)

Chew, de John Layman e Rob Guillory (Image Comics)

Fatale, de Ed Brubaker e Sean Philips (Image Comics)

Manhattan Projects, de Jonathan Hickman e Nick Pitarra (Image Comics)

The Massive, de Brian Wood e Kristian Donaldson (Dark Horse Comics)

Wolverine and the X-Men: Alpha and Omega, de Brian Wood e Mark Brooks (Marvel Entertainment)


Hellboy: The Storm and the Fury de Mike Mignola e Duncan Fegredo (Dark Horse Comics)

Hellboy in Hell, de Mike Mignola (Dark Horse Comics)

quarta-feira, dezembro 19, 2012

GRAPHIC NOVEL # 2 - ASTERIOS POLYP, DE DAVID MAZZUCCHELLI




Na época de seu lançamento, esta obra, escrita e desenhada por David Mazzuchelli, foi uma sensação: concorreu a quatro Eisner Award (Ganhou três, Melhor Álbum Inédito, Melhor Escritor/Artista e Melhor Leitreramento) e colecionou outros inúmeros prêmios. Entrou nas listas de melhores de 2009, quando foi lançado lá fora, repetindo esse feito no Brasil em 2011, quando foi publicado aqui. Ganhou vários prêmios em 2010, incluindo três Harvey (Melhor letreirista, melhor Graphic Novel original e melhor edição ou história), prêmio especial em Angoulême, o maior prêmio europeu de Quadrinhos, Grand Prix de la Critique, ganhou o primeiro Los Angeles Times Book Prize para Quadrinhos e mais um monte de outros prêmios e indicações ao redor do mundo.

Daredevil: Born Again 

Mazzuchelli já era conhecido da mídia, quando desenhou o título do Demolidor, para a Marvel e Batman, para a DC. Em parceria com o outrora genial e hoje caduco Frank Miller, produziu duas obras-primas das HQs de super-heróis modernas: Demolidor – A Queda de Murdock (Marvel) e Batman – Ano Um, ambas lançadas originalmente em edições mensais, mas que ainda alcançam considerável sucesso na forma de encadernados (ou TPBs).


                
Batman: Year One
Depois disso, Mazzuchelli abandonou a indústria mainstream e partiu para projetos mais pessoais. Publicou a antologia Rubber Blanket e co-escreveu e desenhou Cidade de Vidro, uma adaptação do livro de Paul Auster. Nestas obras, utilizou experimentalismos que culminariam em Asterios Polyp.

"The Big Man", Rubber Blanket # 3
Paul Auster's City of Glass: The Graphic Novel

A história do livro não tem nada demais. Embora seja contada de maneira envolvente, não há muitas novidades na trama básica: um homem que perde quase tudo reconstrói sua vida e seu modo de ser ao mesmo tempo em que tenta entender o que fez de errado em seu passado. No início da trama, tudo que lhe resta são a roupa no corpo, um canivete suíço, um isqueiro e um relógio, objetos que possuem um imenso valor sentimental para o personagem (e que são utilizados como marcos de sua mudança). Por meio de flashbacks, descobrimos que foi ele casado e as razões por que está sozinho. 



O surpreendente, mesmo, nesta Graphic Novel é o modo como Mazzuchelli conta a história. Ele utiliza de forma ousada os elementos gráficos típicos de HQs, como onomatopéias, balões, cores, enquadramentos, etc., para conduzir a trama de forma magistral. Nada aqui é despropositado. Os detalhes, por menores que sejam, são repletos de significado e intenção. O destaque do álbum é o jogo narrativo que Mazzuchelli conduz com variação de traço, colorização e fontes de texto, criando uma história que só poderia ser contada com o que os quadrinhos podem oferecer.


A história é narrada pelo irmão gêmeo natimorto de Asterios, Ignazio. Asterios é um famoso arquiteto de papel (seus projetos nunca foram construídos) obcecado pela dualidade pela ordem. Para ele, tudo pode ser encaixado em dualidades: preto e branco, homem e mulher, cara e coroa, opostos que se complementam. Essa dualidade está presente na obra em detalhes aparentemente insignificantes (como o nome da mãe de Asterios e Ignazio, Aglia Oglio) e acaba se refletindo no próprio Asterios (Há o Asterios “de antes” e o “de depois”, cada um com suas particularidades, díspares, porém, complementares; o próprio fato dele ter um irmão gêmeo, que passa a representar a sua metade perdida, etc.).


Asterios é obcecado pela ordem e acredita saber todas as respostas e estar sempre certo. As próprias formas do Asterios refletem essa austeridade, através de formas geométricas precisas (notem as formas de sua cabeça e como ele se desdobra nos momentos em que sua). Os contrapontos entre ele e a Hana, seu par romântico, também mostram isso. Hana é representada pela cor vermelha, indicando sentimento, paixão, enquanto Polyp é representado pelo azul, uma cor mais fria e que remete à ordem, razão, mostrando um embate entre razão e sentimento (olha a dualidade aí novamente). Esse recurso também serve para exemplificar o que é explicado no início do livro, sobre o modo como cada personagem se vê no mundo.


Começei a ler Asterios Polyp de maneira despreocupada, mais ligado à trama que aos gráficos. Certos detalhes você acaba percebendo de cara e outros são mais sutis (um deles, eu só fui perceber quando estava além da metade do livro, o que me fez retornar à primeira página só para pescar esse e outros).

Mal acabei de ler e logo comecei a folhear o livro de novo, com um olhar mais crítico e atento. 

Título: Asterios Polyp
Autor: David Mazzucchelli
Editora: Quadrinhos na Cia. (Cia. Das Letras)
Páginas: 344 
Preço: R$ 63,00

terça-feira, novembro 13, 2012

GRAPHIC NOVEL # 1 - PINÓQUIO, DE WINSHLUSS

Pinóquio foi escrito e desenhado por Winshluss – pseudônimo de Vincent Paronnaud, co-diretor de Persepolis e Frango com Ameixas, ambos baseados na obra de Marjane Satrapi (Recomendo fortemente o primeiro e espero ver o segundo). O Pinóquio original, de Carlos Collodi, é um “Cautionary Tale”, onde o personagem principal passa por várias provações e é punido por cada uma de suas infrações (nariz cresce quando mente, vira burro quando se entrega à preguiça, etc.), sendo recompensado quando se torna um bom menino.

Esta é uma livre adaptação, como o autor diz no início, do conto original. Esqueça a história infantil. Aqui, a realidade é suja, podre, (quase) ninguém é puro ou inocente. Todos tem algo a esconder. O personagem principal, Pinóquio, é um autômato feito por Gepeto originalmente como uma arma de guerra, um supersoldado, com a qual ele sonha ficar milionário.


Um personagem secundário, mas não menos importante, é Jiminy Barata (como o nome sugere, uma barata que substitui o Jiminy Cricket, ou Grilo Falante, como é conhecido por aqui), um boêmio, escritor fracassado que não tem onde morar e que adota o Pinóquio como um apartamento. Ao mexer na “fiação” do novo apartamento, acaba gerando um defeito que faz com que o Pinóquio tenha uma certa autonomia (ou algo próximo a uma consciência), que faz com que ele saia da casa do Gepeto, após um acidente doméstico nada peculiar, e vagueie pelo mundo.
















Na maior parte do tempo, ele apenas observa e acompanha o fluxo dos acontecimentos, sendo jogado de um canto a outro e testemunhando vários fatos que demonstram muitos aspectos negativos da natureza humana: luxúria, ganância, maldade, crueldade, avareza, covardia, abandono, exploração dos mais fracos, violência sem sentido, etc. Em alguns raros momentos, Pinóquio mostra a sua verdadeira natureza de máquina de guerra, por influência de Jiminy Cricket. Mesmo assim, é inocente por ser não ser o agente direto desta e de outras ações.



O álbum apresenta várias histórias paralelas que num momento ou em outro se encontram com a trama principal, mesmo que a princípio pareçam estar perdidas na trama. Mas lembre-se: não há pontas soltas e nada é gratuito. Todas essas histórias estão ligadas ao personagem principal, influenciando seu caminho ou sendo influenciados por sua jornada. A subversão dos contos infantis também estendem-se para a Branca de Neve, que tem uma relação nada sadia com os Sete Anões, e o Flautista de Hamelin.



O texto é quase inexistente, sendo que a história é praticamente toda contada apenas com o uso de imagens, que são fabulosas. Cada quadro, cada painel, cada página é calculada para ser perfeita. O autor não se prende a um estilo, utilizando pranchetas coloridas, o formato em P&B de tiras diárias ou coloridas em duas cores das tiras dominicais da Era de Ouro. Lembra arte impressionista, Robert Crumb, Andy Warhol, quadrinistas cômicos europeus e até Disney. Há até referências à George Meliès.

Recomendo a todos que gostem de quadrinhos e/ou artes gráficas e/ou boa literatura.

Título: Pinóquio
Autor: Wincluss
Páginas: 192
Preço: R$ 75,00

quinta-feira, agosto 02, 2012

CADÊ A CORRUPÇÃO QUE ESTAVA AQUI?

Tem muita gente por aí que diz que o Governo Lula foi o mais corrupto e que o de FHC que era bom, por que não tinha nada disso (houve um antigo conhecido meu que disse que o de FHC era melhor por que ele falava inglês fluente). Com o julgamento do mensalão e a cobertura sempre imparcial da mídia brasileira do “maior caso de corrupção que esse país já teve”, a gente até fica propenso a acreditar nisso. Não vou negar que houve muita corrupção e escândalos no Governo Lula e agora no de Dilma, mas era esse mar de rosas todo no governo FHC? Será que eu vivi em um país diferente de uma realidade alternativa? Eis alguns fatos que eu me lembro e que foram reavivados, graças ao Google:  

- Houve casos mal apurados sobre dinheiros de campanha (dizem que FHC comprou fazenda em nome dos filhos e apartamento em Paris com dinheiro de caixa 2).

- Privatizações com a justificativa de diminuir a dívida pública (que ironicamente aumentou em mais de 100 vezes) e atrair capital externo (houve aumento da dívida externa). E para onde foi o dinheiro das privatizações? Ninguém sabe, ninguém viu... O que se sabe é que rolou muita propina. O Ex-caixa de FHC e de Serra foi acusado de pedir 15 Bilhões para favorecer o grupo que levou a Vale (a preço de banana) e de pedir 90 Bilhões para ajudar a montar o consórcio Telebrás.

- Extinção da Comissão Especial de Investigação, órgão instituído por Itamar e que contava com membros da sociedade civil para apurar casos de corrupção. O que acontece no Planalto fica no Planalto...

- Várias medidas para injetar dinheiro público (tirando dinheiro, inclusive, da Previdência) em bancos privados, que resultou na CPI dos bancos, que foi devidamente engavetada e esquecida.

- Pouca gente lembra, mas até o Governo FHC, não tinha reeleição. O mandato eram de 4 anos e só. Assim, foi feita a emenda da reeleição, conhecida por alguns como A Festa. Várias gravações revelaram que muitos deputados venderam seus votos a preço de ródio, que vale mais que ouro.  Talvez aí tenha sido gasto o dinheiro das Privatizações...

- Foram feitos vários acordos que beneficiavam os EUA, como o SIVAM, o caso da base em Alcântara, questões envolvendo patentes, entrega de patrimônio genético brasileiro sem royalties e a subserviência total ao FMI. Se Bush ordenasse, FHC latia sim.

- Houve vários, mas vários, casos de desvios de verba e de corrupção envolvendo o governo. SUDENE, PROER, Opportunity, precatórios, TRT paulista, FUST, Telebrás, DNER, Banco Marka, são nomes e siglas que envolveram vários escândalos durante o mandato FHC. Há menção disso quando se fala no Governo FHC? Nah.

- O BNDES deu mais de R$ 10 bilhões para socorrer empresas que assumiram as estatais privatizadas.Ou seja, você comprava a estatal a preços baixíssimos e ainda ganhava para isso.

 - No governo FHC, as investigaçõesda Polícia Federal eram mínimas (28 operações em 8 anos de mandato). Além disso, seu governo contava com apoio irrestrito da mídia em geral. Os escândalos eram divulgados quando não tinha mais jeito de esconder. No Governo Lula, as coisas eram mais transparentes. Em seu mandato, foram 1150 operações da PF. Se hoje ocorre um julgamento do Mensalão, agradeça a essa política de transparência...

segunda-feira, julho 23, 2012

LIVROS DIGITAIS OU NÃO, EIS A QUESTÃO...

Como eu já disse em outro texto, eu sou viciado em livros e tenho um armário cheio deles para provar, além de diversas revistas e quadrinhos. Adoro o cheiro de livro novo e de alguns velhos, adoro tocá-los, o som que fazem quando se folheia as páginas rapidamente, o design e o privilégio de se possuir algumas edições raras. Meu sonho é um dia ter uma biblioteca com estantes decentes para exibir meus livros ao mundo (bem, pelo menos a parte dele que for à minha casa). O grande problema em se ter muitos livros é o espaço físico necessário para guardá-los. E há ainda aqueles que você sabe que nunca mais irá ler, mas insiste em guardar por razões sentimentais.

Também sou fissurado em treconologia e nada melhor do que uma bugiganga que une a tecnologia com a leitura, ainda mais com a quantidade enorme de livros digitais que se pode encontrar por aí. Desde que eu ouvi falar do e-ink, eu fiquei fascinado com essa tecnologia e após a criação do kindle, o leitor de livros digitais da Amazon.com, ele passou a ser um de meus sonhos de consumo.

Meus primeiros contatos com livros digitais ocorreram por volta de 1991, 92, na biblioteca da Escola Técnica Federal de Campos (Atual IFF), onde havia disponível uma revista literária mensal em CD-ROM que a cada mês disponibilizava um livro completo de um autor clássico. Quando eu passei efetivamente a fazer parte da rede mundial de computadores, em 1998 (Na época, o navegador mais usado era o Netscape Navigator e a ferramenta de busca mais acurada era o Altavista), na UENF, que disponibilizava acesso à internet a seus alunos, fiz contato com livros em HTML, DOC, TXT e RTF. Era possível guarda-los em disquetes (que rapidamente ficavam impossibilitados) ou em anexos de e-mail. Era possível imprimi-los, prática que se revelava desvantajosa, devido ao preço do papel e da tinta. Era possível ler esses livros na tela. Embora muita gente consiga até hoje fazer isso, foi algo ao qual eu nunca me habituei.

Anos mais tarde, surgiu um dos melhores formatos para se ter e ler livros digitais, o PDF. Ele permite que se mantenha a formatação original dos livros, dá para se copiar os textos, se o texto não estiver protegido, e atualmente dá para se fazer marcações e notas salváveis no próprio documento. Recentemente, surgiram vários outros formatos digitais de livros, como o EPUB, LIT, MOBI, etc. Com a evolução da tecnologia, também surgiram novos meios de armazenamento de arquivos digitais, com maior capacidade de espaço, mais duráveis e confiáveis, como CDs, DVDs, HDs externos e pen-drives, além das diversas opções de armazenamento pela internet. Também evoluíram os modos de se ler esses arquivos.

Além dos notebooks e desktops, atualmente há uma gama enorme de aparelhos onde se pode ler arquivos digitais. Eu comecei a ler, pra valer, livros digitais durante minhas viagens a trabalho, quando estava lendo “A Storm of Swords”, terceiro livro da excelente série “A Song of Ice and Fire”, do George R. R. Martin. Como muitas vezes o ônibus onde eu estava não tinha iluminação (mais uma das vantagens de se viajar pela Viação 1001), quando caia a noite eu trocava a leitura do livro físico pelo digital, através de um dos muitos aplicativos de leitura no iPod, o Stanza (Há vários outros, como CloudReaders, iBooks , Kindle, etc.). Para não cansar os olhos devido à luminosidade excessiva, muitos desses aplicativos ainda contam com a opção de leitura noturna, onde o fundo fica escuro e apenas as letras estão iluminadas. Posteriormente, eu adquiri um iPad e passei a ler alguns livros digitais nele. Grande parte da leitura do livro seguinte da série do Martin, “A Feast for Crows”, foi realizada utilizando essas várias opções, além do livro físico. Em algumas viagens, por questão de volume da bagagem, eu já nem levava mais o livro físico, já que eu teria que levar o iPad também por motivos de estudos.

A decisão de comprar um Kindle, embora latente, foi decisiva a partir do momento em que eu comecei a ler o 5° livro da série, “A Dance of Dragons”. O livro havia acabado de ser lançado, só havia a edição capa dura, uma belezinha de mais de mil páginas e quase 2 kg, algo pouco prático de se levar para qualquer canto, como eu fazia com as edições anteriores em brochuras (ou paperbacks). E não havia previsão de quando a versão paperback seria lançada. Comecei a ler no iPad, que não é a melhor das opções para se levar para cima e para baixo, depois no celular Android (na ausência do Stanza, tentei o aplicativo Moon+ Reader e o Aldiko) e no iPad. A oportunidade de comprar um Kindle surgiu quando a avó de um amigo meu foi para os EUA. Dá para comprar pelo Amazon.com para entrega no Brasil, mas os impostos e a taxa de envio tornam a tarefa impraticável.  Comprei um Kindle Touch a $ 99,00, com wi-fi e com anúncios e ofertas especiais (eles só aparecem quando não se está lendo, não atrapalhando a leitura em momento algum). Com o IOF no cartão, saiu a R$ 216,00. Há a opção de comprar um Kindle sem toque na tela, com e sem anúncios ($79,00 e $109,00, respectivamente) um Touch sem anúncios ($ 139,00) e com 3G, que também funciona por aqui ($ 149,00, com anúncios, e $ 189,00, sem). Há outras opções, com teclados.

A Amazon.com já anunciou que pretende vender, quando abrir sua filial por aqui, a versão normal, com anúncios e ofertas especiais, a aproximadamente R$ 200,00. Isso se a tarifação brasileira não colocar o seu preço lá em cima, como é comum com qualquer eletrônico que venha para cá.

Vantagens e desvantagens de leitores Digitais

Apesar de existirem outros leitores de livros digitais, como o Nook, o Kobo e o Sony Reader, da mesma forma que existem outros tablets, relato aqui a minha experiência com aqueles que eu possuo e que eu mais utilizei. Tenho um celular com Android que também possui aplicativos para leitura de livros, mas como eu quase nunca o uso, já que a bateria vai embora, não vou me aprofundar. E o que vale para o iPod, vale para o iPad.

iPad

A maior vantagem do iPad é que ele permite a leitura de praticamente todos os formatos de livros digitais existentes por meio dos vários aplicativos para esta finalidade. Muitos permitem a leitura noturna, diminuição do brilho na tela, marcação e anotações, mudanças de tipos e tamanhos das fontes, além de leitura de arquivos CBR e CBZ, específicos para Histórias em Quadrinhos. E o tamanho da tela é ótimo para leitura, principalmente de livros e artigos no formato PDF (praticamente, não imprimo mais material de estudo. Leio todos pelo tablet). O iPad também é excelente para a visualização de revistas, principalmente aquelas desenvolvidas para visualização neste meio, com vídeos e áudios, ou em PDF.

As desvantagem do iPad para leitura são sua tela de LED, que depois de um tempo incomoda os olhos devido à luminosidade, além de ser muito reflexiva, atrapalhando a leitura em ambientes muito iluminados; a duração da bateria, de apenas algumas horas; o peso de 750 gramas, que não permite que se segure por muito tempo com uma só mão e, aliado ao seu  tamanho, 239 mm x 186 mm,  não é muito prático de se carregar e nem para se ler na cama.

Kindle

O Kindle é (quase) tudo de bom. O que deve se dizer, em primeiro lugar, é que não é um tablet. É leve (220 g), tem um tamanho ideal para se segurar e fácil de carregar (Cabe facilmente nos bolsos da calça), permite o armazenamento de alguns milhares de livros e a sua organização em categorias específicas, criadas pelo usuário. Para quem tem o costume de ler mais de um livro de uma vez ou muitas vezes tem que viajar com dois livros, já que está terminando um e prestes a começar outro, isso é ótimo .

A tela não possui iluminação e é em preto & branco, o que permite um conforto visual mais próximo à leitura do papel. Apesar de anunciarem uma duração de bateria de até 2 meses, com o wi-fi desligado, normalmente a minha não dura mais de uma semana (sic).

Apesar da tela ser um pouco reflexiva, dependendo do ângulo que se segure, ele é ótimo de se ler em ambientes iluminados, principalmente sob a luz do sol. É ótimo de se ler enquanto se come ou se está de pé no ônibus (às vezes, dependendo do tamanho do livro, é difícil virar as páginas sem se desequilibrar; e um iPad é grande e pesado, podendo só ser lido quando se está sentando e, ainda assim, algumas vezes é difícil encontrar uma posição adequada).

Os formatos aceitos pelo aparelho são o AZW proprietário, TXT, PDF, MOBI sem proteção. Essencialmente, apenas o MOBI e o AZW tem uma boa visualização.  Ao se comprar um Kindle, a Amazon automaticamente cria uma conta de e-mail para onde se pode enviar arquivos nos formatos PDF, HTML, DOC, DOCX, JPEG, GIF, PNG BMP, que serão convertidos gratuitamente para o AZW (Se no assunto estiver escrito a palavra “convert”. De outro modo, ele vai enviar o arquivo original para a sua nuvem). Os livros para Kindle comprados na Amazon.com e convertidos e/ou enviados para o e-mail associado ficam vinculados a sua conta, o que permite a sua consulta em outros dispositivos, como computadores, celulares, tablets e iPods, desde que estes possuam instalado o aplicativo Kindle. Há sincronização entre eles (desde que se tenha acesso à internet) e praticamente todas as anotações, marcações e posição de leitura (dá para se fazer “orelhinhas” nas bordas da página) são atualizadas entre os aparelhos.

Lembrando que quanto mais elaborado e complexo o PDF (com muitas colunas, gráficos, fontes diferentes, etc.), maior a probabilidade do arquivo convertido chegar com a formatação bagunçada. Normalmente, a conversão de textos sem muitas firulas é bastante satisfatória, sendo que parágrafos e espaços entre linhas muitas vezes somem, mas dá para ler numa boa. 

Há a opção de se marcar ou sublinhar textos e acrescentar notas, que podem ser salvas no formato TXT, ao se conectar o aparelho a um computador. Estas podem ser compartilhadas, também. E todas as notas, assim como as marcações de páginas, ficam disponíveis no índice de capítulos.

Há vários livros disponíveis para compra na Amazon.com, inclusive em português (comprei Sherlock Holmes - Edição Completa, da Editora Agir, cuja edição física, fora de catálogo, custava quase R$ 150,00, a apenas $5,42). Há vários livros, principalmente clássicos, grátis ou em edições completas com anotações com preços que variam entre $ 0,99 e $ 4,99. Muitos livros, principalmente best-sellers, podem ser encontrados a preços módicos, embora atualmente, por imposição de várias editoras, muitos deles estão saindo ao mesmo preço ou até mais caros do que os livros físicos (a Apple Store também está sofrendo com o mesmo problema. Depois reclamam da pirataria...). Após a compra, o livro é carregado automaticamente no Kindle ou dispositivo em segundos! E há ainda a possibilidade se de baixar amostras dos primeiros capítulos de vários livros.

Dá para se baixar muitos livros, legal e ilegalmente, pela rede, além de jornais e revistas. Um dos principais sites para livros gratuitos é o Project Gutenberg, onde há obras completas de domínio público, incluindo de autores brasileiros e portugueses. Um dos formatos disponibilizados para cada livro é o MOBI. E alguns livros comprados ainda podem ser “emprestados” entre aparelhos, por 14 dias (prazo normal de biblioteca, né?).  

- Desvantagens


Há alguma? Tem, sim senhor.

Não há números de páginas e sim posições e porcentagem de leitura. Para eu, que estou acostumado a visualizar o quanto falta para ler pela posição de onde estou ou que gosta de saber qual é a extensão de um livro pelo número de páginas, isso é um pouco chato, mas nada com que não se acostume.

Bom, nunca aconteceu, mas há o risco de se acabar a bateria no meio da leitura.

São poucas pessoas, como Liesel Meminger, que tem a compulsão de roubar livros, mas com um aparelho eletrônico, ainda mais um que lembra um tablet, as coisas podem ser diferentes.

Se um livro cair, poucas vezes sofre algum dano sério (a não ser que seja um dia de chuva e você esteja no meio da rua). Já o Kindle, dependendo de sua sorte, pode dizer adeus.

É um pouco chato, se quiser voltar algumas páginas ou consultar um capítulo anterior. Se você souber o texto ou tiver marcado a posição, pode usar o mecanismo de busca ou o índice, mas se não, tem que retornar página por página ou capítulo por capítulo.


Conclusões

Não acredito que o livro de papel desaparecerá como algumas pessoas preveem, mas é fato que sua produção diminuirá bastante, ainda mais no momento em que isso se tornar vantajoso para as companhias (diminuição de custos com transporte, produção, etc.). Em 2010, a Amazon.com havia anunciado que as vendas de livros digitais estavam superando em quase 100% a de impressos e a cada ano que passa, as vendas aumentam cada vez mais. É óbvio que no futuro o papel do papel mudará drasticamente e os livros provavelmente se tornarão artigo de luxo. Bem, veremos. 

Não vou entrar na discussão se o livro de papel é ou não melhor do que o livro eletrônico. Eu também gosto muito de papel, mas eu gosto muito mais de ler. E o kindle me permite uma ótima experiência de leitura. E o fato de eu ter um Kindle não significa que eu vá parar de comprar livros físicos nem que vá me desfazer daqueles que eu tenho, mas com certeza, vai me permitir ser mais seletivo do que eu comprar. Eu gosto da ideia de ter uma estante com os livros que eu amo e que eu possa deixar de herança para o meu filho.

domingo, junho 10, 2012

LEITURA, ESTE MAL MODERNO!

Quem me conhece há muito tempo, sabe que ler para mim é uma necessidade. Leio em ônibus, nas filas, no restaurante, em qualquer lugar, dada a oportunidade. Isso ocorre desde que eu aprendi a ler (um hábito que não cultivo mais é o de andar lendo. Já li muitos livros no caminho de casa para escola e vice-versa durante o ensino fundamental e o médio). Curiosamente, quase sempre há alguém para me alertar dos malefícios da leitura. A seguir, alguns que eu conheci ao longo de uma vida de vício.

Ler muito, em qualquer situação, leva à loucura (Sempre há um caso de algum conhecido que enlouqueceu de tanto ler e/ou estudar). Ler no ônibus causa deslocamento de retina, miopia ou algo que o valha, cansaço mental, enjoo, dor de cabeça e mais uma infinidade de males que não me lembro mais. Ler enquanto se come provoca... hmmm, ninguém sabe. Sempre que alguém me diz isso, pergunto o que provoca, mas ninguém nunca respondeu. É uma informação passada de geração a geração, mas que não tem base em dados concretos (Um dia eu acho que saberei. As dicas da vovó estão sempre certas. Sempre!!!).

A leitura também é um vicio. Há aqueles que recorrem a ela de forma ocasional, por curiosidade ou como uma diversão momentânea, mas há aqueles como eu que são viciados pesados, que perdem horas de suas vidas, se perdem em devaneios e se esquecem do mundo ao seu redor com um livro em mãos. Junkies, todos eles!

Além destes malefícios, o hábito de ler é reconhecidamente chato. Ver televisão, seja para assistir a novela ou ao BBB, gera mais prazer e menos esforço do que ler um livro (Não para mim, senhor ou senhora, não para mim).

As campanhas para livrarem os jovens desse mal estão tendo resultados positivos. O número de analfabetos funcionais cresce cada vez mais, tanto os provenientes de escolas públicas quanto de particulares. É fácil ver isso em qualquer coluna de comentário de blogs, revistas ou jornais, em várias postagens de redes sociais, em vários textos e provas que os professores são obrigados a corrigir. Muitos tentaram e ainda tentam me persuadir a abandonar este hábito nefasto, mas por enquanto nada surtiu efeito. Será que meu destino é ler até perder o pouco de juízo que me resta? Até morrer com o cérebro cheio de letrinhas? Só o tempo dirá...

segunda-feira, dezembro 26, 2011

A DIFERENÇA

De algumas compras realizadas agora em dezembro.

Amazon.com.uk - Enviado do Reino Unido
Data da compra - 14/12/2011

Data estimada de chegada - 10/01/2012
Nova data estimada de chegada - 29/12/2011
Data de chegada - 23/12/2011

Submarino.com - Enviado de São Paulo
Data da compra - 20/12/2011
Data estimada de chegada - 02/01/2012
Data de chegada - 23/12/2011

Banca.2000 - Enviado de São Paulo
(@banca2000)
Data da compra - 09/12/2011
Data estimada de chegada - 12 dias úteis, após confirmação da postagem do pedido.
Data de postagem do pedido - 23/12/2011

Um dia, eu ainda vou tentar entender porque a Banca2000 demora tanto para postar suas encomendas. O site é muito bom no quesito disponibilidade e preço, mas peca, e muito, no tempo de entrega.

segunda-feira, julho 05, 2010

Carpe Noctem - Parte II.



Drácula – Bram Stoker

Em 1897, Bram Stoker escreveu o mais popular livro de vampiros de todos os tempos. O tema vampirismo já havia sido abordado em outras obras, como “O Vampyr”, de Polidori, e “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu. “Drácula” é considerada a obra-prima do gênero e foi o responsável por popularizar vampiros e lançar as convenções sobre o tema que são utilizadas até hoje. Stoker utilizou lendas do leste europeu e lhes deu uma nova roupagem. Utilizou de uma figura histórica, Vlad Stepes, o Impalador, cuja crueldade não tinha limites e era conhecido por beber sangue de seus inimigos. Até relatos de uma espécie de morcego do Novo Mundo que se alimentava de sangue foram utilizadas como fonte de idéias (Para o infortúnio dos morcegos, diga-se de passagem).

“Drácula” é um epistolário, onde diários de várias pessoas e recortes de jornais montam a estória. Nos diários de viagem do Procurador Jonathan Harker, conhecemos o Conde Vlad Stepes, o Dracul, o último Voivode da Valáquia, nobre interessado em comprar propriedades na Inglaterra. O que era para ser uma simples viagem de negócios torna-se uma experiência apavorante. Jonathan passa de visitante a prisioneiro no castelo de Drácula. Descobre, então, que o plano de Drácula é dominar o Reino Unido (então, o mais poderoso Império da Terra) e, consequentemente, dominar o mundo. O resto da estória, em menor ou maior grau, todos conhecem: A chegada do Conde na Inglaterra, a apresentação da noiva de Jonathan, Whilelmina (ou Mina) Murray, os delírios de Reinfeld, a sedução e lenta transformação da melhor amiga de Mina, Lucy Westenra, a reação de seus admiradores e pretendente perante a sua morte (e, depois, ao seu despertar), o chamado ao Professor Van Helsing e a caçada a Drácula, que culmina em sua destruição.

Ler “Drácula” é uma experiência sublime e, em alguns momentos, torturante. Tanto pela tensão quanto pelo estilo. Muitas vezes, o autor exagera na narrativa, estendendo-a além do necessário. Tal estratégia torna-se bastante evidente ao final do livro, durante a caçada à Drácula, onde elementos desnecessários são acrescentados de modo a prolongar o desfecho. Outro fato que chama bastante atenção é a derrota de Drácula, que eu considero bastante implausível. Como uma criatura poderosa como ele poderia ser facilmente derrotado por um bando de aventureiros? A única explicação é encontrada analisando-se o espírito da época: O “mal” não poderia vencer. Vários outros livros, da mesma época, retratavam ameaças reais, alienígenas ou sobrenaturais ao Império Britânico (A chamada Literatura de Invasão). Drácula representava uma potência estrangeira que intencionava invadir e conquistar o Reino Unido.

Uma última observação: Em Drácula fica estabelecido que vampiros podem, sim, andar durante o dia, mas que neste período seus poderes nefastos estão enfraquecidos ou ausentes. Portanto, não há nenhuma novidade em “Crepúsculo” também em relação a esse fato. Bem, talvez tirando o fato da luz do sol fazê-los brilhar...

Anno Drácula, de Kim Newman

Em “Coisas Frágeis”, Neil Gaiman explica que no seu conto “Um Estudo em Esmeralda” (Recomendo!) tentava fazer o mesmo que Alan Moore em “Liga Extraordinária” e Kim Newman em “Anno Dracula”, misturando personagens de obras distintas em um único universo ficcional (Neil Gaiman ajudou a desenvolver a série e seria o co-autor). O primeiro eu já conhecia. Fiquei interessado neste último e pesquisei um pouco sobre a obra e seu autor. O livro é de 1992 e é o primeiro de uma série de mesmo nome. A edição americana estava fora de catálogo e passei anos atrás dela. Finalmente, no ano passado, ela foi publicada por aqui pela Aleph em uma edição bem bacana. É um livro de História Alternativa, onde Drácula não é derrotado, se casa com a Rainha Vitória, tornando-se então o Príncipe Consorte, e transforma a Inglaterra em um lugar onde os Vampiros são a classe dominante. Newman utiliza diversas personagens de outras obras, principalmente vampiros.

Na trama, um assassino serial, apelidado de Faca de Prata, começa a matar prostitutas vampiras em Whitechapel, retalhando-as de forma cirúrgica. Considerando a natureza das vítimas, tais crimes são considerados políticos, um ataque pessoal ao Príncipe Consorte. Uma Vampira, Geneviève Dieudonné, é encarregada pela Scotland Yard de investigar os assassinatos. Ao mesmo tempo, o Clube Diógenes, uma sociedade secreta a serviço da Rainha, encarregada de cuidar de assuntos que não podem ser do conhecimento público, encarrega o seu melhor agente, Charles Beauregard, de também investigar o caso. Eventualmente, os caminhos dos dois se cruzam e eles se unem para tentar desvendar o caso.

Em uma estratégia que lembra o “Do Inferno”, de Alan Moore, Newman desde o início revela quem é o assassino, suas motivações e seus métodos. A trama se concentra então no relacionamento de Geneviève e nas relações sociais e políticas entre a nova classe dominante, a dos Vampiros, e a dos humanos normais, Os Quentes, que muitas vezes são tratados apenas como alimento. Retrata também os conflitos decorrentes desta mudança de poder, a transformação como única possibilidade de ascensão social – só vampiros são autorizados a ocupar altos cargos do governo - e o aumento da tensão entre humanos e vampiros, que transformam a Inglaterra em um barril de pólvora prestes a explodir.

Newman tenta, nesta obra, unir as várias caracterizações de vampiros já exploradas em obras anteriores. Os vampiros, neste universo, são divididos em linhagens e sabemos que existem Vampiros mais antigos e mais poderosos do que Drácula, Os Anciões, sendo Geneviève um deles. Estabelece-se que a idade também torna os Vampiros resistentes à luz do sol. Aliás, a linhagem sanguínea de Drácula é considerada degenerada e seus “filhos” são suscetíveis aos mesmos defeitos que ele. Nem todos os Vampiros possuem aversão a crucifixos, água benta ou alho, sendo que tal fraqueza é considerada como um produto de superstição. A única coisa fatal a todos os vampiros é prata, recurso utilizado pelo assassino para matar de forma eficiente suas vítimas.

Que a Aleph publique o mais breve possível os outros livros da série.

domingo, novembro 29, 2009

CARPE NOCTEM

Vampiros estão na moda. Alguma vez saíram? Crepúsculo e suas continuações estão na lista de mais vendidos. “True Blood” e “The Vampire Diaries”, adaptações televisivas de livros de sucesso (The Sookie Stackhouse Novels, de Charlaine Harris, estão começando a ser publicados no Brasil. Diários do Vampiro, de L. J. Smith, já estão sendo publicados por aqui a algum tempo) estão em exibição em alguns canais por assinatura . Recentemente, a editora Aleph lançou no Brasil “Anno Dracula”, de Kim Newman, um livro de história alternativa que mostra uma realidade onde Dracula não só sobreviveu como se tornou Príncipe Consorte, tornando-se o regente do Império onde o sol não se põe (quem quiser me dar de presente...).

Desde “Drácula", de Bram Stoker, os vampiros fazem parte do imaginário popular. Como fã dos Desmortos, devo dizer que desde a minha infância esses seres povoam a minha mente. Uma de minhas primeiras experiências com essas criaturas ocorreu com os filmes da Hammer. O clássico Drácula, com Christopher Lee no papel principal, foi um dos pontos altos de minha infância. Até hoje, relembro com prazer da trilha sonora. Das seqüências, pouco me lembro além das vampiras sedutoras de peitos de fora. Ri com “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polanski. Me apavorei com “A Hora do Espanto” (Obriguei a minha mãe a deixar a luz acesa na noite em que vi o filme. Revendo-o, já na adolescência, não vi a razão para tanto medo...). Outros filmes: “Amor à Primeira Mordida”, “Sede de Viver”, "Garotos Perdidos”.

Confesso (Mea culpa, mea culpa) que ainda não li Dracula, de Bram Stoker mas garanto que está na minha lista de próximas leituras.

As experiências literárias marcantes referem-se à:

1. A Hora do Vampiro – Ou “Salem’s Lot”, de Stephen King, publicado em 1975 (Um bom ano, eu diria...). Considero este um de seus melhores livros. Eu o li quando tinha uns 11, 12 anos. A história passa-se na cidade de Jerusalem’s Lot (ou Salem’s Lot), uma pacata e modorrenta cidade no interior do Maine. A chegada de um estranho visitante transforma a cidade em um ninho de vampiros. Um grupo de pessoas – um escritor, um médico, um professor, um garoto fã de filmes de terror e um padre – tornam-se os improváveis caçadores de vampiros.

King usa como base a mitologia vampiresca usada por Stoker e muitos outros que vieram após ele. Seus vampiros transformam-se em nevoa e animais, controlam animais sujos, usam serviçais de mente fraca, não atravessam água corrente, dormem em caixões com terra consagrada, tem aversão à cruz e para uma morte permanente tem, além da estaca no coração, a cabeça cortada, a boca preenchida com alho e são mergulhados em um rio.

Lembro que enquanto lia o livro, tive pesadelos recorrentes com o pôr-do-sol e o pavor com o seu ocaso. Bem melhor que sonhar com números e equações em vésperas de prova de calculo...

2. Crônicas VampirescasAnne Rice soube, com perfeição, reinterpretar o mito do vampiro em “Entrevista com o Vampiro”. O amargurado (ou chato, escolha a sua definição) Louis, narra a sua vida após renascer como um vampiro a um repórter, mostrando vampiros como humanos cuja percepção de mundo são alteradas pelos dons (ou maldições) proporcionados pela transformação e a consciência de imortalidade. Lestat, responsável por tornar Louis em um vampiro, é mostrado como um monstro.

Em “Vampiro Lestat”, vemos o seu lado. Lestat, após um longo sono, desperta em um mundo completamente estranho (anos 80) e, fascinado, escreve uma biografia, monta uma banda e se apresenta como um vampiro. Todos acham que ele é apenas mais uma invenção da mídia, o que não evita que outros vampiros declarem guerra por ele ter violado a regra de nunca mostrar aos humanos sua verdadeira natureza. Ele conta a sua origem e dá a sua versão de alguns fatos narrados por Louis. Vemos então que enquanto Louis se lamenta pelo que se tornou, um avatar da morte, Lestat simplesmente se conforma e tenta aproveitar o máximo a eternidade, bem como o que ela tem a oferecer. A morte de “inocentes” é um pequeno preço a ser pago.

3. Twilight - Ou Crepúsculo. Devo confessar que demorei um ano ou mais para conseguir ler esse livro. Neste período, comecei a ler umas três vezes e não conseguia ir adiante. Conheci o livro por intermédio de uma amiga, que havia comprado o original bem antes de seu lançamento no Brasil. Só comecei a ler quando senti a necessidade de ler algo que pudesse terminar o mais rápido possível e que fosse de fácil leitura, pois estava lendo “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “American Gods”, de Neil Gaiman.

Para quem passou os últimos anos em Marte ou em algum planeta próximo e não conhece a trama básica, eis um resumo: Bella, uma adolescente de 17 anos, conhece Edward, por quem se apaixona e descobre que é um vampiro, que também se apaixona por ela, mas a evita por ser atraído por seu sangue (que loucura não deve ser quando ela está naqueles dias...).

Confesso que a narrativa de Stephenie Meyers me prendeu, ainda mais com os ganchos a cada fim de capitulo. A cada novo capitulo, eu esperava realmente que fosse acontecer alguma coisa grandiosa. O livro não é totalmente ruim, mas é o tipo de entretenimento que é melhor aproveitada com o cérebro no modo off. Há vários furos na narrativa e discuti-los todos necessitaria de um outro post. A personagem Bella, mais uma adolescente angustiada sem causa aparente, é um porre. Edward é pior ainda (ainda hoje eu me pergunto o que um vampiro de 200 anos, bonitão, cheio da grana, com a eternidade ao seu dispor e que pode andar à luz do dia – com o inconveniente de brilhar, infelizmente – tem na cabeça pra ter a infeliz idéia de voltar ao Ensino Médio). Quando a trama dá uma esperança de reviravolta, ela retorna ao lugar comum. Até a batalha no fim é forçada. Os vampiros são uma versão mais pálida de adolescentes ricos e lindos de seriados americanos como “Barrados no Baile”, “The O.C.” ou “Gossip Girl”. Dirigem carrões, habitam mansões e são escravos da moda.

A autora diz que não sabia nada sobre vampiros e que não se inspirou em nenhuma obra anterior sobre o tema. Mas o romance entre uma adolescente e um vampiro bicentenário “vegetariano” foi mostrado nas primeiras temporadas do seriado “Buffy The Vampire Slayer”, de Josh Whedon. Seu Edward é uma versão adolescente do Louis da Anne Rice. Talvez a novidade da obra seja o fato de nada acontecer, o que se deve provavelmente às crenças da autora, que é presbiteriana. Para adolescentes e mulheres com um ideal utópico de romantismo, que ainda acreditam no amor à primeira vista, é uma leitura ideal. O livro agrada o seu publico-alvo, que carece de uma literatura água-com-açúcar e sem muito conteúdo e aos pais dos adolescentes, que se alegram com um livro onde não há sugestão de sexo (os personagens principais só chegam às vias de fato após o casamento, o que ocorre em outro livro) e pouca violência.

Ainda não tive ânimo para ler os outros livros. Talvez entre uma e outra leitura com mais substância.

4. Let the Right One In (Låt den rätte komma in) – Ou “Let me In”, de John Ajvide Lindqvist, como foi renomeado no mercado americano (que teve o nome reduzido, pois o acharam longo demais. Vai entender...). O nome é tanto uma referência à uma musica de Morrissey (Deixe a pessoa certa entrar) quanto ao mito de que um vampiro precisa de um convite formal para adentrar um recinto. Inicialmente, assisti ao filme, que saiu por aqui como “Deixe Ela Entrar”. O filme é lindo: a história, a fotografia, as interpretações, a edição. O fato de saber que foi baseado em um livro me fez procurar a obra (que não saiu no Brasil, ainda). É um dos cada vez mais raros casos de uma boa adaptação, ainda que algumas situações estejam simplificadas no filme, levemente alteradas ou subentendidas no filme.

Na obra, Oskar, um garoto de 12 anos, com pais divorciados, que vive sofrendo agressões por valentões na escola, que coleciona reportagens sobre crimes hediondos e que é um tanto precoce para a sua idade, conhece uma garota, Eli, que acabou de chegar na vizinhança, iniciando uma amizade, sem saber que a recente onda de assassinatos que assolam o bairro estão ligados à ela, uma vampira de 12 anos... há 200 anos. À medida em que a amizade (e o amor) entre os dois vai crescendo, ambos encontram uma espécie de refugio, de santuário, um no outro. Ele, das agressões do mundo; ela, do tormento de ser uma coisa que não pediu para ser e de ter que matar para viver. Na amizade, eles vivem a sensação de normalidade. Ambos se permitem ser crianças.

O livro engloba outros personagens, que são afetados, cada um a seu modo, pelos acontecimentos . Suas vidas são interligadas e são afetadas pelas decisões e passos tomados por cada um deles. Em alguns momentos, me irritava ter que desviar a atenção de Oskar e Eli para algum outro personagem, mas o autor consegue fazer o leitor se interessar pelos outros personagens e a certa altura você passa a dar importância a todos eles e seus problemas.

A trama é bem profunda e aborda temas como pedofilia, incesto, abuso religioso, homossexualismo, alcoolismo e tem uma linguagem bem mais complexa e elaborada do que o Twilight, com o qual já foi comparado. O livro é da Suécia, onde, acredito, não há a preocupação em escrever já pensando em uma possível roteirização - praga que assola o mercado literário do lado de cá. Há longas descrições, viagens interiores e longos capítulos onde os personagens “principais” nem aparecem. O próprio filme adaptado, também sueco, é atípico, se comparado ao cinema americano, condicionado à produção de blockbusters feitos sob medida para um público que não gosta de pensar. Aliás, já está em andamento a produção de uma versão cinematográfica estadounidense. Uma tentativa, talvez vã, de refazer o que já foi feito de forma sublime. Ou será uma tradução para um publico que se desacostumou a pensar? Só o tempo dirá.